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Horror e memória em "Como Nascem os Fantasmas", de Verena Cavalcante

1 de out.
6 min de leitura

 

Há fantasmas que assombram porque querem ser vistos, e há fantasmas que assombram justamente porque se recusam a ser decifrados. São desses últimos que é feito o romance de Verena Cavalcante. Como Nascem os Fantasmas (2025) parte de uma pergunta que o próprio título já formula com uma literalidade quase incômoda: de onde vêm as assombrações que a gente carrega? A resposta que o romance vai desenhando não está em nenhum sobrenatural de fora, alheio à experiência, mas na memória como o lugar onde o trauma coletivo volta em forma de assombro.

Cavalcante vem construindo, desde seus primeiros trabalhos, um projeto literário que já dá para reconhecer de longe dentro do horror brasileiro contemporâneo: uma atenção quase obsessiva ao corpo, — sobretudo ao corpo infantil e feminino – como a superfície em que as múltiplas faces da violência deixam suas marcas. Como Nascem os Fantasmas é seu primeiro romance e, nele, Cavalcante amplia o fôlego sem abandonar as obsessões: a criança-narradora, a casa como organismo assombrado e o corpo em decomposição como imagem central. A autora é identificada com o chamado "gótico tropical", e aqui esse rótulo faz sentido de um jeito muito concreto: o horror do livro nasce do ambiente interiorano, da religiosidade popular, da ditadura, da fábrica, do trem, e não de um castelo europeu.

Beatriz, a narradora, tem onze anos e foi criada por sua avó, Dona Divina (Vovó Didi), médium, benzedeira e líder de um grupo espírita de cura, a Comunidade do Divino Espírito da Flor Vermelha, sob a crença de que é a reencarnação de sua própria mãe, Ângela, morta no parto. Em casa, um avô paralítico e mudo, ex-policial da ditadura, é cuidado por ambas em silêncio pesado. Numa noite de apagão, o corpo da avó é tomado pelo espírito de Mayara, uma menina de sete anos torturada e assassinada na cidade, e é Beatriz quem acaba levada, em transe, até o corpo escondido da menina. A partir daí, o romance acompanha a obsessão crescente de Beatriz em se tornar médium como a avó, sua amizade e primeiro amor com o menino Lipe, e a descoberta progressiva de que a "porta aberta" da mediunidade da família está ligada a uma entidade recorrente, a Mulher Vermelha, e a uma história de violência que atravessa gerações: da vizinha amaldiçoada na capital, ao passado escravocrata do casarão dos Morano, à participação do avô na repressão política. O clímax se dá justamente naquele casarão, numa cerimônia de Finados em que os limites entre corpo, memória coletiva e possessão colapsam de vez.

A narração é retrospectiva e em primeira pessoa: uma Beatriz sem localização temporal reconstrói, com todo o vocabulário e a distância de quem já processou (ou tenta processar) o episódio, a menina de onze anos que foi. Isso já é uma escolha de peso, pois texto nunca finge ser a voz "pura" da infância; pelo contrário, é sempre infância filtrada pela memória, contaminada pelo que veio depois. Essa dupla temporalidade permite que o romance avance cronologicamente (do apagão à noite final no casarão) sem deixar de ser circular: o livro abre com um prólogo chamado "Os fantasmas de Beatriz" e fecha com um epílogo chamado "Como nascem os fantasmas". Quando nossa protagonista, finalmente, entende a "fabricação" do fantasma que ela mesma está se tornando. Vale destacar também como a estrutura em capítulos curtos, quase todos abertos por uma epígrafe ou um provérbio popular, e intercalados por trechos em que a voz da avó assume o texto em discurso direto longo (a história da vizinha na capital, por exemplo), funciona como uma mise en abyme: a avó conta histórias de assombração para explicar o presente, e o próprio romance faz o mesmo com o leitor. A narrativa apreende, estruturalmente, a lógica da transmissão oral daquilo que ela representa tematicamente.

O horror aqui é construído muito mais pelo dito do que pelo sugerido — e essa é talvez a marca mais reconhecível do estilo da autora. Há uma insistência quase compulsiva no detalhe corporal abjeto: fluidos, decomposição, dejetos, insetos são uma verdadeira constante no romance. A cena da possessão no banheiro (a avó nua, incontinente, "vazia" de si mesma) já anuncia o vocabulário que vai reger o livro inteiro. Abraçando completamente  a estética da obscenidade, esses elementos operam na "superexposição dos elementos causadores de horror", optando por "uma magnificação dos elementos que possam chocar seu receptor" (Silva, 2017, p. 117-118). Como um todo, o texto não deixa o medo no campo da especulação; ele escancara o objeto pavoroso. Abandonando completamente as elipses, é um horror por saturação sensorial.

Cada capítulo empilha imagem visceral sobre imagem visceral, num crescendo que culmina na visão da "serpente do mundo", em que os corpos de toda a cidade se fundem numa única massa disforme. Ao mesmo tempo, esse estilo hiperbólico convive com um registro afetivo e infantil muito preciso: o jeito como Beatriz nomeia as coisas (marcas de brinquedo, programas de TV, gírias características do final dos anos 80) e a maneira como intercala o vocabulário mórbido com a lógica lúdica da infância (o cemitério como parque de diversão particular, a brincadeira de "queimar bichinho"). É esse contraste, o mórbido narrado com naturalidade infantil, que produz o efeito de horror mais eficiente do romance, mais do que qualquer imagem isolada.

Se existe um fio que atravessa a obra de Cavalcante, é a convicção de que o monstruoso não precisa vir de fora: ele nasce do que foi vivido e não pôde ser inteiramente digerido pela consciência. E é aí que a abjeção, no sentido que Kristeva (1982) dá a ela, funciona como uma chave de leitura bastante produtiva — o abjeto como aquilo que perturba justamente por não respeitar a fronteira entre sujeito e objeto, entre o que é próprio e o que é estranho. O fantasma, em Como Nascem os Fantasmas, pode ser lido menos como entidade sobrenatural e mais como figuração desse retorno do recalcado: a memória que, impedida de se tornar narrativa coerente, volta como assombração.

O romance dá a esse conceito uma ancoragem textual muito clara na figura da Mulher Vermelha, que nunca é propriamente explicada ou fixada — ela é vizinha, é avó, é a própria Beatriz no espelho final. Essa indefinição não é uma falha, é o argumento do livro: o trauma (da escravidão, da ditadura, do abuso, do luto mal resolvido) não tem forma fixa porque nunca foi processado como narrativa — só circula, se hospeda em corpos diferentes e "possui" quem estiver mais vulnerável. Quando avó Didi adverte Beatriz sobre a mediunidade com “ou se nasce com a porta aberta ou não se deve forçá-la”, fica claro que memórias reprimidas, uma vez destrancadas, não têm mais como ser recolocadas no lugar. O diálogo com Inventário dos predadores domésticos, coletânea de contos da autora, também fica evidente: ali, como aqui, é uma narradora-criança quem atravessa e tenta dar sentido à violência doméstica através da lente do sobrenatural, um projeto de autora que amadurece em escala, do conto ao romance, sem perder a coerência.

Como Nascem os Fantasmas contribui de forma consistente ao subcampo do horror brasileiro contemporâneo e, especificamente, à tradição de autoria feminina no gênero que pensa o doméstico, o corpo infantil e as sequelas históricas da violência da escravidão, da ditadura e da cultura do feminicídio. É leitura recomendada tanto para quem acompanha essas expressões literárias de perto quanto para quem se interessa por narrativas de trauma e memória, com o aviso de que o romance não poupa o leitor de imagens fortes de violência contra crianças e animais.

Ao fim, o título Como Nascem os Fantasmas se revela como a tese de uma filosofia narrativa. A escolha do verbo "nascer" recusa a ideia de que o assombro seja uma invasão alienígena ou uma anomalia do além, propondo, em vez disso, um lento processo de gestação íntima. Os fantasmas não invadem nossas vidas; eles são paridos no silêncio das casas, nutridos pelos traumas que não conseguimos ou não podemos nomear. A reflexão que a obra de Verena Cavalcante nos deixa é perturbadora justamente por sua inescapável humanidade: somos o terreno onde nossos piores horrores deitam raízes, e a memória, quando impedida de curar, torna-se o verdadeiro ventre de toda assombração.

 

Referências

CAVALCANTE, Verena. Como Nascem os Fantasmas. Rio de Janeiro: Suma/Companhia das Letras, 2025.

 

FRANÇA, Júlio. O horror na ficção literária: reflexão sobre o "horrível" como uma categoria estética. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DA ABRALIC, 11., 2008, São Paulo. Anais... São Paulo: USP, 2008.

 

KRISTEVA, Julia. Powers of horror: an essay on abjection. Translated by Leon S. Roudiez. New York: Columbia University Press, 1982.

 

SASSE DA SILVA, Pedro Puro. Coordenadas do medo: uma proposta de análise da ficção de horror. In: SILVA, Alexander Meireles da et al. (orgs.). Estudos do Gótico. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2017. p. 110-120.

 

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