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“Não há tempo para amar e nada para lembrar”: A Hora Final (1959) e o pesadelo atômico

4 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: 1 de set.

A Hora Final (On The Beach, 1959)

 

Bem, eu… Não posso entender.

Oh, sim, posso. Mas é injusto. É injusto porque eu não fiz nada…

e ninguém que eu conheça fez alguma coisa.

  

Na década de 1960, o cinema de ficção científica explorou o temor de que uma guerra nuclear pudesse, a qualquer instante, extinguir a vida na Terra. Essa ansiedade foi abordada tanto por diretores consagrados em produções de grandes estúdios (majors) – como Stanley Kubrick em Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, 1964) e Sidney Lumet em Limite de Segurança (Fail Safe, 1964) – quanto em títulos de estúdios independentes, como Pânico no Ano Zero! (Panic in the Year Zero, 1962), dirigido por Ray Milland para a American International Pictures (AIP). Essas obras refletiam o momento de tensão vivido nos EUA durante a Guerra Fria, em um cenário posterior aos bombardeios das cidades civis de Hiroshima e Nagasaki, quando os Estados Unidos se tornou o primeiro (e único) país a usar a bomba atômica em uma guerra.

Essas narrativas, de certa forma, seguiam uma tendência iniciada na década de 1950, com obras como Os últimos cinco (Five, 1951), de Arch Oboler; Day the world ended (1955), de Roger Corman; e O diabo, a carne e o mundo (The world, the flesh and the devil, 1959), dirigido por Ranald MacDougall. Tais filmes exploravam o “fim do mundo”, mostrando um grupo de sobreviventes diante da hecatombe nuclear. Contudo, A Hora Final (On the Beach, 1959), de Stanley Kramer, acaba se destacando não apenas pelo seu elenco estelar, mas por seu impacto político. A obra gerou preocupação na administração do então presidente Dwight Eisenhower. O governo norte-americano temia que a repercussão do filme de Kramer gerasse uma resposta pública inaceitável: o fortalecimento dos movimentos contra a bomba atômica e contra os crescentes gastos militares.

Lançado no final da década de 1950 – com uma estratégia de lançamento que incluiu a estreia simultânea em 18 cidades ao redor do mundo, incluindo Moscou –, A Hora Final se insere historicamente em um contexto doméstico estadunidense marcado pelo Macarthismo, a “caça às bruxas” e a chamada segunda onda do Pânico Vermelho (Red Scare).

O pânico vermelho define o período de perseguição e paranóia anticomunista nos Estados Unidos, marcado pelo temor de que os comunistas (ou os vermelhos) estivessem infiltrados no país para destruir o “estilo de vida americano”. A primeira onda do pânico vermelho ocorreu entre 1917 e 1920, em resposta à Revolução Russa. O receio de uma revolução nos moldes soviéticos desencadeou uma repressão brutal contra movimentos de esquerda, anarquistas e socialistas, resultando em prisões em massa, deportações e ataques a sindicatos.

Durante a Guerra Fria, o medo dos comunistas foi novamente alimentado e, somado à bomba atômica, levou à segunda onda do pânico vermelho, que ocorreu entre o final dos anos 1940 e meados da década de 1950.

O temor dos “vermelhos” afetou diversas áreas da sociedade, do governo até à população, passando pela indústria cinematográfica. Esse clima de tensão influenciou a cultura estadunidense da época, fazendo com que muitas obras refletissem as ansiedades geradas pelo perigo nuclear.

O pânico da autodestruição e a paranóia comunista criaram uma atmosfera de vigilância, alimentando a sensação de que os comunistas estavam em todas as partes, prontos para destruir os EUA de dentro para fora. Nesse cenário, o Comitê de Atividades Antiamericanas investigava pessoas que, supostamente, tinham vínculos com o comunismo, coagindo os indivíduos a testemunhar e delatar outros “infiltrados”.

Durante esse período, o senador Joseph McCarthy ficou marcado por suas acusações infundadas e persecutórias. Tal clima foi utilizado para justificar violação de direitos civis, repressão e perseguição. Compreender esse contexto sócio-político é essencial para compreender os filmes de ficção científica da época, a maioria com tom pessimista, que transformaram as tensões e incertezas do momento em narrativas cinematográficas sobre a sobrevivência, aliadas a um discurso antinuclear.

“Tudo que quero saber é… se todos são tão inteligentes, por que não sabiam o que aconteceria?”

Baseado no romance (On the Beach) de Nevil Shute publicado em 1957, A Hora Final (1959) foi dirigido por Stanley Kramer e tem no elenco artistas como Gregory Peck, Ava Gardner, Fred Astaire e Anthony Perkins. A trama se passa em 1964, após uma nova guerra que devastou parte do mundo. Apenas os habitantes da Austrália e os homens do submarino norte-americano comandado por Dwight Towers (Peck) escaparam da destruição e da radiação, pelo menos por enquanto.

O longa adota uma postura bem dura sobre o fim da humanidade pelo holocausto atômico, conduzindo sua narrativa com um certo cinismo. Em determinado momento, um sinal é captado pelo submarino. Ao investigarem o sinal, na esperança de encontrar um grupo de sobreviventes, descobrem que o sinal vinha de uma garrafa de coca-cola presa em um barbante que, devido ao vento, balançava e esbarrava no transmissor. Como se os objetos de consumo, como a coca-cola e, posteriormente, os carros de corrida, ainda gerassem ruídos nessa sociedade abarcada por um pessimismo de que é tarde demais para se fazer alguma coisa. O ruído do consumo é apenas uma falsa esperança. Nada mais que um desejo de interagir socialmente a partir do objeto.

Essas falsas esperanças criam a oportunidade de colocar em pauta temas polêmicos, como o suicídio assistido por meio de um remédio distribuído para a população como uma alternativa menos dolorosa aos efeitos da nuvem radioativa que se aproxima da região. O dilema entre morrer lentamente pela radiação ou “tomando o remédio” assombra o personagem de Perkins, que sofre ao propor à esposa tomar o remédio juntamente com a filha do casal, Jennifer, uma bebê, caso ele não retorne de sua missão.

O clima melancólico e pessimista do filme reflete a mentalidade da época. Por mais que a história se concentre no personagem de Peck, outros personagens têm seus momentos de destaque, servindo como representantes de outros medos que rondavam por diversos segmentos da população. Por meio de uma extensa variedade de personagens, o filme mostra os anseios de forma individual e coletiva, mostrando como tais medos, mesmo que particulares, são afetados pelo coletivo e pelo político. Como o medo de estar sozinho no fim do mundo, representado pela personagem Moira (Gardner); ou o medo de ver seus amigos e familiares mortos pela guerra, como ocorre com o oficial Swain (John Meillon), que ao ver sua cidade natal deserta e morta devido à radiação, resolve sair do submarino mesmo a área estando contaminada, dizendo que preferia “adoecer” em sua própria terra. Até mesmo o comandante Towers vive um estágio de negação, tentando reprimir e negar o luto por sua família. O personagem explica: 

Veja, na Marinha, durante a Guerra acreditava que algo aconteceria comigo. Não devia pensar assim. Também acreditava que minha mulher e meus filhos estariam seguros em casa. Que estariam bem, não importava como. O que não previ foi que neste tipos de guerra monstruosa algo poderia acontecer com eles e não comigo. Bem, aconteceu… Não consigo… Não consigo conviver com isso. Meus filhos… Todos os planos desde que eles nasceram. Sharon. Sharon e eu, nós… Veja, éramos pessoas que ficaríamos felizes de envelhecer juntos. E eu não posso aceitar. Não posso…

Em um contexto de guerra, mesmo o indivíduo não fazendo nada de “errado” para perpetuar a guerra e permaneça omisso, o conflito pode afetar diretamente sua vida a qualquer momento. O filme propõe um olhar consciente sobre o papel do indivíduo dentro do coletivo, destacando a necessidade de uma consciência política sobre como atos individuais e políticos podem afetar o destino de toda uma sociedade. Ao abordar o apocalipse atômico, a obra não aponta culpados, colocando sua intenção sobre a importância de prevenir uma guerra nuclear ao invés de incitar uma.

Em um debate sobre quem iniciou a guerra, o personagem de Fred Astaire culpa Albert Einstein, em um tom sarcástico, mas depois completa, o que talvez seja a grande síntese de A Hora Final: “A guerra começou quando as pessoas aceitaram o princípio idiota de que a paz poderia ser mantida através de armas que provavelmente ninguém poderia usar sem cometer suicídio.”

Por mais que a personagem de Gardner lamente que “Não há tempo. Não há tempo para amar e nada a lembrar”, no final, enquanto a câmera mostra as ruas desertas de uma cidade morta, o que sobra é uma faixa com o aviso: “There is still time…brother” (Ainda há tempo, irmão). Pelo menos na vida real, ainda há tempo.

 

Referencial

 

A HORA FINAL. Direção: Stanley Kramer. Estados Unidos, 1959.

 

EVANS, Joyce A. Celluloid mushroom clouds: Hollywood and the atomic bomb. Boulder: Westview Press, 1998.

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